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16/04/2019
Fabião das Queimadas

Nasceu escravo da Fazenda do Coronel Zé Fereira. Começou a cantar por volta dos 10 anos, durante os trabalhos na roça. Era tocador de rabeca. Adquiriu seu instrumento aos 15 anos, com dinheiro do trabalho na roça.

Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha nasceu escravo, em 1850, na fazenda Queimadas, do coronel José Ferreira da Rocha, no atual município de Lagoa de Velhos (RN). Começou a cantar durante os trabalhos na roça. Tornou-se tocador de rabeca, tendo adquirido seu instrumento aos 15 anos, com o apoio do seu dono, que permitia e incentivava que ele cantasse nas casas dos mais abastados da região e nas feiras. Conseguiu angariar algum dinheiro que, aos 28 anos, possibilitou comprar a sua alforria. Era analfabeto, mas criava versos, como o “Romance do boi da mão de pau”, com 48 estrofes. Suas composições apresentam traços dos romances herdados da idade média.

O cantador negro Fabião das Queimadas foi poeta popular das vaquejadas no Agreste do Rio Grande do Norte. Escravo do fazendeiro José Ferreira da Rocha, juntou vintém a vintém, seu pecúlio e alforriou-se, assim como sua mãe e uma sobrinha, Joaquina Ferreira da Silva,  com quem casou. Pagou 800$000 (oitocentos mil réis) por si, 100$000 (cem mil réis) por sua mãe e 400$000 (quatrocentos mil réis) pela futura esposa. Cantava acompanhando-se com a rabeca fanhosa e fiel, pondo-a à altura do peito como os menestréis clássicos.
 
Diziam as más línguas que Fabião era filho apanhado do fazendeiro José Ferreira da Rocha com uma escrava sua. E não é de admirar, pois naquele tempo eram muito comuns os amores ilícitos entre os senhores de escravos, ou seus filhos, e as escravas. E o velho Zé Ferreira, segundo contavam seus contemporâneos, não fugiu à regra da época. Do afeto do fazendeiro pela jovem escrava, na senzala, ou quem sabe por trás das moitas, foi que a escrava engravidou. Nove meses depois vinha ao mundo o, também, escravo Fabião. Contam que o próprio poeta não negava que realmente era filho bastardo do senhor das Queimadas.
 
Segundo seu filho, Filipe Ferreira da Silva, o pai havia iniciado sua vida de cantador ainda muito jovem. Fabião das Queimadas nasceu poeta. Não teve nenhum curso, não estudou em parte alguma. À sua rabeca dedicou esta redondilha:
 
Minha rabequinha
é meus pés e minhas mão,
é meu roçado de milho,
minha planta de feijão,
minha criação de gado,
minha safra de algodão.
 
O Senador Eloy de Souza, que era negro, assistindo a uma apresentação de Fabião das Queimadas, na residência oficial do então governador Ferreira Chaves, recebeu do famoso poeta esta saudação:
 
 Seu Doutô Eloy de Souza
Minha mãe sempre dizia,
Se o senhor não fosse rico,
Era da nossa famia.
 
 
O Senador gostava tanto de Fabião que, sempre que podia, patrocinava-o nos grandes festivais de repentes e de vaquejadas pelo Nordeste afora. O senador muitas vezes insistia que o poeta negro se hospedasse em sua residência, quando este se encontrava em Natal para participar de cantorias. Entretanto, Fabião preferia a residência e a companhia de seu grande amigo, Luís da Câmara Cascudo.
[...]
Seu José Bezerra, contemporâneo dos poetas Cosme Marques, Luís Patriota e José Abdias, lembra, com os olhos cheios de lágrimas, “de uns versinhos de Fabião que diziam assim:
 
Minha mãe era pretinha,
Pretinha que nem quixaba,
 Mas o seu nome era doce
Tão doce que nem mangaba.
Quando forrei minha mãe,
A lua nasceu mais cedo,
Pra clareá o caminho
De quem deixava o degredo.
 
O nome da mãe é doce
Que nem a pinha madura
Mas passa o doce da fruta
E o doce do nome atura.”
 
Em 1923, Fabião das Queimadas já era conhecido e respeitado no estado, onde no início do período republicano manteve ligações com políticos da terra, emprestando seus talentos ao criar versos que serviam, ora para enaltecer os amigos poderosos, ora para denegrir seus adversários. Já suas apresentações em Natal, aparentemente eram raras ou restritas a residências de particulares que gostavam da prosa sertaneja.

“A Republica”, de 19 de dezembro, em novo texto assinado por “Jacinto da Purificação”, trouxe uma extensa reportagem sobre o cantador, onde buscavam apresentá-lo a cidade. Foi comentado como no passado Fabião havia conquistado sua liberdade, “que a fama de Fabião corria mundo”, mas ressaltou “que o seu estrelato alcançava aquele mundo que não ultrapassava as fronteiras da nossa terra”.

Em 1923, a expectativa de vida dos mais pobres no Brasil mal chegava aos 60 anos. Fabião, então, com sessenta e dois anos, era considerado com “ótima lucidez, perfeita memória e bom timbre de voz”. Afirmou-se que era “verdadeiramente um desses milagres para os quais a ciência não encontra explicação”. Informaram que “aquilo que Fabião chama de sua obra”, certamente daria um volume com mais de 300 páginas. Algumas destas obras haviam sido criadas pelo cantador 55 anos antes, em 1868. Para recitá-los ou cantá-los, junto com sua inseparável rabeca, ele utilizava apenas sua privilegiada memória.

Uma passagem interessante comentava que certa ocasião, um amigo mais chegado lhe perguntou como ele criava e guardava seus versos. Na sua simplicidade, o cantador disse que “quando eu quero tirar uma obra, me deito na rede de papo prá riba, magino, magino e quando acabo de maginar, está maginado pru resto da vida”.

Chamou atenção do autor do texto como Fabião era um sertanejo dotado de uma imensa bondade, pois lembrava saudosamente do seu antigo senhor, José Ferreira. Em uma passagem, o autor conta uma história onde Fabião rebate uma crítica feita ao seu antigo amo, por não tê-lo mandado à escola quando jovem, ao que o cantador comentou; “meu senhor foi sempre homem de muito tino e ele bem sabia que se me tivesse mandado ler e escrever, quem o vendia era eu”.

O final do texto de “Jacinto da Purificação”, deixa transparecer um certo receio de fracasso ante a apresentação do poeta, que estava “descolado do seu meio”. Colocava entretanto que, “qualquer que seja a sorte da prova que se vai suceder, Fabião para nós será sempre o velho genial”.

Fabião das Queimadas morreu em 1928, aos sessenta e oito anos, de tétano, em uma pequena fazendola de sua propriedade, chamada “Riacho Fundo”, próximo a Serra da Arara e ao Rio Potengi, na atual cidade de Barcelona (RN).